Dia de Eres: A Liberdade da Criança e o Controle do Adulto

A pureza da troca e o valor do simples

A frase “Tio, quero doces, cadê meu brinquedo” pode parecer apenas uma fala infantil, espontânea, até ingênua. Mas dentro dela existe algo que muitas vezes se perde com o tempo: a ausência de máscaras.

A criança pede.
Sem medo, sem cálculo, sem vergonha.

Ela expressa o desejo de forma direta, sem camadas de julgamento ou expectativa social. E isso revela um estado de consciência muito particular — um estado onde o querer não é reprimido, nem distorcido.


O olhar infantil e a espiritualidade

Quando o texto bíblico diz: “Deixai vir a mim estas criancinhas…”, não se trata apenas da idade, mas do estado de ser.

A criança vive no presente.
Sente e expressa.
Confia e se entrega.

Ela não carrega, ainda, os pesos acumulados de experiências, frustrações e condicionamentos. Sua percepção do mundo é mais leve, mais aberta — e, por isso, mais próxima de uma experiência espiritual genuína.


O encontro com a regra

Mas esse estado começa a se transformar quando a criança entra nos espaços organizados pela sociedade.

Certa vez, uma aluna entrou na sala de aula tomando uma coquinha.
Era um gesto simples, natural, sem malícia.

O orientador, ao perceber, foi imediatamente atrás para pedir que ela descartasse. A regra da escola era clara: não se permite comer ou beber fora do horário da merenda.

A situação foi resolvida como tantas outras — rápida, objetiva, dentro do esperado.

Mas algo permaneceu.

Não o ato em si, mas a sensação.

Aquele instante levanta uma questão silenciosa:

o que está sendo educado ali?


Educar ou ajustar?

A educação orienta?
Ou limita?

Protege?
Ou molda?

Ensina a conviver?
Ou ensina a se adequar?

Regras são necessárias — organizam, estruturam, criam convivência.
Mas, ao mesmo tempo, elas também começam a delimitar o comportamento, ajustar o impulso, conter o espontâneo.

A criança que pedia doces sem hesitar…
agora aprende o momento certo de pedir, o lugar certo de agir, a forma correta de existir.

E, pouco a pouco, vai internalizando padrões.


O contraste com o adulto

Com o tempo, o ser humano aprende a conter, filtrar e esconder.

Deixa de pedir com clareza.
Passa a duvidar do próprio desejo.
Substitui a simplicidade por estratégias.

O adulto pensa antes de falar.
A criança sente e simplesmente diz.

E talvez não seja uma evolução pura —
mas também uma adaptação.


Doces e brinquedos: símbolos de algo maior

Os doces e brinquedos não são apenas objetos. Eles representam prazer, alegria, recompensa, afeto.

Quando a criança pede, ela não quer apenas o objeto — ela quer a experiência que ele proporciona.

E o adulto continua buscando isso…
mas agora dentro de regras, horários, padrões e expectativas.


Reflexão final

Talvez a educação não seja apenas ensinar o que é certo ou errado,
mas decidir o que deve ser mantido… e o que será deixado para trás.

Entre orientar, punir, moldar ou proteger, existe uma linha tênue.

E, nesse processo, algo inevitavelmente se transforma.

Mas então permanece a pergunta:

quando ensinamos alguém a viver em sociedade…
estamos ampliando sua consciência —
ou apenas ensinando a controlar aquilo que um dia foi livre?

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